PCC – Primeiro Comando da Capital

PCC
Continuando nossa série sobre o crime organizado, para que talvez se possa compreender que esse pessoal não está de brincadeira. Porque o pior cego é aquele que não quer ver.
As duas organizações criminosas mais expressivas atualmente, são o PCC – Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, cujas matrizes são oriundas de São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente, e as filiais encontram-se espalhadas em diversas partes do Brasil, em especial, no Nordeste, no Ceará.
No ano de 2007, em minha dissertação de mestrado, intitulada “Regime Disciplinar Diferenciado – RDD: Regime de Cumprimento de Pena ou Sanção Disciplinar?”, relatava:
“O PCC ou “Partido do Crime”, cujo lema é “Paz, Justiça e Liberdade”, surgiu na Casa de Custódia de Taubaté, no estado de São Paulo, na década de 90, mais precisamente no ano de 1993, por ocasião de um jogo de futebol, sendo inicialmente liderado por José Márcio Felício, o “Geléia” ou “Geleião”. Somente em novembro de 2002 o PCC seria comandado por Marcos William Herba Camacho, o “Marcola”.”
“A princípio, o PCC surgiu como um movimento criado pelos presos da Casa de Custódia de Taubaté, para onde eram transferidos os presos mais periculosos e indisciplinados, cujo objetivo era defender os seus direitos frente ao desumano sistema carcerário paulista. Quando os presos de Taubaté eram encaminhados para outros estabelecimentos penitenciários, as ideias propostas pelo PCC eram disseminadas, arregimentando assim suas fileiras”.
Mas o PCC não se trata apenas de um bando de presos unidos e revoltados contra o sistema carcerário que os abriga. O PCC tornou-se uma organização criminosa com enorme poder de arregimentação de novos adeptos e de infiltração nos mais variados segmentos sociais, com atuação no ramo do narcotráfico, do mercado ilegal de armas, da lavagem de dinheiro, planejamento e execução de fugas e rebeliões.
O PCC está organizado em células, possui estatuto, hierarquia, códigos de ética, códigos de comunicação, rituais para o ingresso dos novos membros, pagamento de mensalidade, tesouraria descentralizada, financia treinamento militar e ações criminosas, investe em pessoas para que se graduem em cursos universitários, possui ligações com agentes do Estado corruptos, capazes de repassar informações privilegiadas, etc.
O PCC se organizou como o Estado brasileiro jamais ousou fazer.
Hoje, nós podemos ver isso de forma clara como a luz do sol que brilha no Ceará. Ou você duvida?
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça

Raízes do Brasil

“RAÍZES DO BRASIL”
“(…) de quantos lá vieram, nenhum tem amor a esta terra (…) todos querem fazer em seu proveito, anda que seja a custa da terra, porque esperam de se ir (…) não querem bem à terra, pois têm sua afeição em Portugal; nem trabalham tanto para a favorecer, como por se aproveitarem de qualquer maneira que puderem; isto é geral, posto que entre eles haverá alguns fora desta regra”.
O trecho acima transcrito, extraído do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, é de autoria do padre Manoel da Nóbrega e foi escrito no ano de 1552; todavia, o seu conteúdo permanece mais atual do que nunca, pelo que poderíamos apenas mudar os protagonistas: no lugar dos portugueses, colocaríamos uma expressiva quantidade dos homens públicos do país, em especial, aqueles detentores de cargos eletivos.
Como é cediço, a colonização portuguesa no Brasil tinha o nítido fim de explorar nossas riquezas e enviá-las a Portugal, não havia um objetivo edificador, de construção de uma nova nação.
Triste perceber que as características constatadas por Sérgio Buarque de Holanda na colonização portuguesa, tais como: a falta de hierarquia, o desleixo, a indolência displicente das instituições e costumes, o espírito aventureiro, o desejo de enriquecer mediante a exploração das riquezas e da mão-de-obra escrava, a ociosidade enquanto símbolo de nobreza, ainda se encontram enraizadas em nossa cultura, notadamente através da chamada “lei de Gérson”.
Mas não vamos culpar os portugueses pelas nossas desgraças, afinal, cinco séculos se passaram e pouco se mudou em relação à influência lusitana nos nossos costumes e instituições.
É preciso mudar essa “tradição” e abandonarmos de vez a mentalidade herdada de que a nossa terra deve ser apenas explorada, quando então o Brasil se tornará verdadeiramente uma grandiosa nação.
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça

Crime Organizado

CRIME ORGANIZADO
Nos últimos tempos, a imprensa cearense – em específico – vem noticiando matérias sobre a “paz” entre as gangues das favelas, por meio de organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho, a estabelecerem um código de conduta em que a comunidade deve respeitar-se e ser respeitada, sob pena de sofrer severas punições, caso venham cometer crimes em seus respectivos territórios.
Também verificamos a prática de atentados a ônibus, delegacias de polícia, mortes de policiais, resgates de presos, rebeliões simultâneas em presídios, o que tem gerado uma sensação de insegurança e desconforto perante a sociedade. E o Estado do Ceará diz desconhecer que tais fatos se devam a organizações criminosas.
Foi pensando nisso que resolvi escrever alguns artigos sobre o tema crime organizado, talvez para que o Estado do Ceará possa compreender que isso realmente existe e não se trata de contos da carochinha.
No ano de 2007, escrevi minha dissertação de mestrado, intitulada “Regime Disciplinar Diferenciado – RDD: Regime de Cumprimento de Pena ou Sanção Disciplinar?”
Para quem desconhece, o regime disciplinar diferenciado ou RDD, foi uma sanção disciplinar primeiramente criada pela Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo, logo após a megarrebelião ocorrida no ano de 2001, em diversas unidades prisionais paulistas, orquestrada pelo PCC, o Primeiro Comando da Capital.
Nessa época, o PCC restringia seu campo de atuação a São Paulo, enquanto o Comando Vermelho atuava no Rio de Janeiro, constituindo-se nas mais poderosas organizações criminosas do país.
Como sempre, a incompetência estatal jamais pensou que o PCC e o CV se expandiriam, se fortaleceriam para além de seu campo de atuação, para além de suas delimitações geográficas. Hoje, acompanhamos estarrecidos o empoderamento dessas organizações criminosas no Brasil inteiro, em especial, no Ceará.
Em 2007, eu dizia: “E o Estado brasileiro ainda nega o poderio da atuação das organizações criminosas no país, inclusive, do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital. Ignora a sua força, a eficácia de seu modus operandi, como se fossem tais organizações uma simples união de presos com o objetivo de promover rebeliões nas penitenciárias, tanto para protestar contra as más condições do sistema carcerário quanto para desmoralizá-lo”.
O crime organizado se agigantou. O Estado se desorganizou. A sociedade está nesse meio, impotente, vulnerável.
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça

Comando Vermelho

COMANDO VERMELHO
No terceiro artigo relacionado ao crime organizado. Falaremos do Comando Vermelho, que hoje se encontra bastante atuante no Ceará, a exemplo de seu antigo parceiro e rival, PCC.
O Comando Vermelho, facção criminosa dotada de impressionante estrutura de organização, surgiu no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, por volta do ano de 1979, numa época em que ali se encontravam inúmeros presos políticos enquadrados na Lei de Segurança Nacional. De início, o aparecimento do Comando Vermelho decorreu de uma necessidade de se estabelecer uma união entre os presos para sobreviver à violência de seus próprios pares, bem como para se insurgir contra as desumanas condições de encarceramento impostas pelo sistema penitenciário.
Então o Comando Vermelho se organizou, conquistou inúmeros adeptos, eliminou os grandes líderes das facções criminosas rivais (Terceiro Comando e ADA), passou a fazer reivindicações à administração prisional em favor da massa carcerária e desta ganhou respeitabilidade. O Comando Vermelho proclamava a luta pela “Paz, Justiça e Liberdade”, lema que seria adotado posteriormente pelo PCC paulista.
Com o passar do tempo, o CV organizou fugas em favor dos principais dirigentes da organização encarcerados no presídio da Ilha Grande e depois de várias outras penitenciárias; instituiu a “caixinha” da organização, para a qual os seus integrantes deveriam contribuir com dinheiro proveniente dos assaltos, dos sequestros e do narcotráfico, dinheiro esse destinado a pagar advogados, para ajudar os familiares dos presos e para custear o pagamento de propinas a policiais, a integrantes do sistema penitenciário, dentre outros.
O CV conseguiu dominar mais de 70% do mercado de drogas. O dinheiro arrecadado com as ações criminosas, mais precisamente assaltos a bancos e sequestros de pessoas ricas, passou a ser investido no mercado financeiro, na compra de moeda estrangeira, numa lavagem de dinheiro que agigantava o império do crime. Mas essas operações criminosas eram muito caras e arriscadas, as perdas eram significativas, de modo que o comércio de drogas se tornou um negócio mais seguro e lucrativo.
O estado do Rio de Janeiro, por sua vez, não soube lidar de forma adequada na prevenção e no combate às ações do CV, permitindo que descessem o morro e se alastrassem.
O CV hoje está aqui, no Ceará, firme e forte.
O CV e o PCC dominam as prisões e controlam o crime organizado no Ceará.
O difícil é aceitar.
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça

A DELAÇÃO DA ODEBRECHT – O RAGNAROK

Na mitologia nórdica, o Ragnarök ou a Batalha Final, seria uma luta intensa e terrível travada entre os deuses e os gigantes, que resultaria no fim do mundo, com a morte de vários deuses, dentre eles Odin, Thor e Loki.
Com o crepúsculo dos deuses, o mundo passaria por catástrofes naturais, o sol e a lua escureceriam, as estrelas desapareceriam do firmamento, um grande terremoto abalaria a terra, que submergiria na água.
Seriam tempos difíceis, com a destruição dos nove mundos de Yggdrasil, a árvore sagrada que sustentava o céu e a terra. Ao Ragnarök sobreviverá apenas um casal de humanos, responsável por repovoar a terra, Midgard.
Poderíamos fazer uma analogia do Ragnarök com a Delação da Odebrecht, considerada a delação do fim do mundo, em que a família Odrebrecht e seus executivos revelarão, nos autos do processo da operação Lava Jato, os escuros e intrincados caminhos da corrupção no país, trilhado por políticos, empresários, lobistas, doleiros, responsável pelo saque aos cofres públicos mais violento já ocorrido no Brasil – pelo menos, que se tenha notícia -.
O Ragnarök brasileiro, infelizmente, não é mitológico, é real, claro como a luz do sol. Quisera fosse pura e simples mitologia.
Embora denominada de “delação do fim do mundo”, não ocorrerá a destruição do mundo político, mas apenas um rumoroso escândalo, a ser esquecido nas próximas eleições, porque a memória de nosso povo é fraca. Não será dito nada além do que é sabido, mas agora as máscaras cairão.
O Ragnarök brasileiro durará o suficiente para que o Congresso Nacional se reúna e faça passar, na surdina, a lei das Dez Medidas contra a Corrupção, apenas na parte que lhes convém, notadamente no que pertine à chamada “anistia do caixa 2” e de todos os crimes correlatos, como lavagem de dinheiro, corrupção, evasão de divisas, etc.
O Congresso Nacional dará um jeito de sobreviver ao Ragnarök, editando uma lei estapafúrdia capaz de lhe favorecer e de livrar seus membros das garras da temida Lava Jato e, como num castelo de cartas, os corruptos sobreviverão intactos, rindo e galhofando de nossa inocência.
O Ragnarök brasileiro será a batalha final do povo, a luta pela sobrevivência do cidadão que paga os impostos, do servidor que contribui a vida inteira para uma previdência que nunca desfrutará como deveria, do empresário, do trabalhador, do estudante…
O crepúsculo dos deuses se transformará na alvorada dos demônios.
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça

Macbeth

Macbeth
“Estou num mundo em que fazer o mal é quase sempre louvável, fazer o bem muitas vezes, é considerado loucura perigosa.” Dizia Shakespeare em Macbeth.
A atualidade da frase acima é impressionante. É quando percebemos o quanto a tecnologia, as facilidades – muitas delas maravilhosas – do mundo moderno nos tem distanciado do ser humano, tanto assim é verdade que nunca se falou tanto em humanismo, em tratamento humanizado e coisas parecidas nos diversos ramos das mais diversas profissões. Costumamos falar mais do que mais carecemos. Ou não?
Hoje em dia, baixar o vidro do carro para dar esmola (é perigoso), colocar um pedinte de comida dentro de casa para dar água e comida (gesto de loucura, insanidade absoluta), parar o carro no meio da rua para ajudar alguém que teve o carro quebrado (risco de ser um assalto), dar dinheiro para alguém que pede ajuda para comprar um remédio para o filho doente (certamente será para comprar droga)…
Parece que estamos esperando do próximo sempre o pior. Um gesto de generosidade, de delicadeza para com o outro é visto com desconfiança, com alarde até. E nos pegamos pensando: “fulano está planejando alguma coisa” ou “essa alma quer reza”.
Em Macbeth, Shakespeare retratou a face mais vergonhosa do ser humano: a ganância, a luta desmedida pelo poder, a traição, o homicídio, a dissimulação. Macbeth tramou e executou a morte do rei, de nobres e de seus familiares destinados à sucessão, de modo a que lhe fosse garantido o trono. Mas também mostrou o preço dessas escolhas: a falta de paz de espírito, os conflitos internos, o peso na consciência a atormentar uma existência tranquila e feliz.
Talvez se nos desarmássemos mais diante do próximo.
Talvez se não cobrássemos demais, inclusive, aquilo que somos incapazes de dar.
Talvez se começássemos a acreditar um pouco mais nas pessoas.
Talvez…
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça e Escritora

Raízes do Brasil 2

“RAÍZES DO BRASIL 2 ”
O clássico brasileiro “Raízes do Brasil”, de autoria de Sérgio Buarque de Holanda, apesar da provecta idade – publicado primeiramente em 1936 – é sempre festejado com comemorações marcadas por palestras, seminários, dentre outras programações de caráter cultural de semelhante natureza.
A obra referida, a despeito da avançada idade, se encontra mais atual do que nunca, sendo capaz de retratar com perfeição a sociedade brasileira em seu aspecto político, econômico, social e cultural, fazendo-nos compreender porque somos assim.
A maioria dos brasileiros ainda compreende o Estado como “uma ampliação do círculo familiar”, onde os interesses privados sobressaem em relação aos interesses públicos, onde a família e os amigos sempre encontram abrigo, embora alguns acreditem que o nepotismo acabou.
Ledo engano. O nepotismo se encontra ainda arraigado nas entranhas do poder, mas de forma discreta e dissimulada, numa espécie de conspiração velada, onde uma simples revelação pode provocar um efeito dominó em diversas esferas do Estado, mostrando a público as diversas faces dos detentores do poder.
O homem brasileiro se encontra mais cordial que nunca, hospitaleiro e generoso, especialista no uso excessivo de diminutivos, tratamento esse dispensado aos santos e até às maiores autoridades do país.
A educação do povo brasileiro como instrumento de mudança para uma sociedade mais justa e democrática, ainda é compreendida como a mera alfabetização em massa, como se somente isso fosse capaz de mudar a realidade, transformando o Brasil no país do futuro, num futuro que nunca chega.
“Raízes do Brasil” nos faz perceber que pouca coisa mudou da época da colonização portuguesa para os dias atuais, apenas disfarçamos melhor a realidade.
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça

DESGRAÇA DÁ IBOPE

DESGRAÇA DÁ IBOPE
Até bem pouco tempo, sair nas páginas policiais de um jornal era algo considerado como detestável, e somente a mera possibilidade de tal fato ocorrer já era assustadora. Hoje, quando folheamos um jornal, praticamente só encontramos desgraça: “pai estupra filha”; “desabamento mata vinte pessoas”; “policial morto por bandidos”; “sequestrado empresário”; “verbas públicas desviadas”; “fuga de presos em delegacias”; “chacina no presídio”, dentre outras manchetes de igual ou semelhante natureza.
Mas essa ênfase aos dramas e às tragédias se repete nos noticiários televisivos, cujas boas notícias veiculadas podem ser contadas nos dedos de apenas uma das mãos.
É inevitável o seguinte questionamento sempre que lemos um periódico ou assistimos um telejornal: será que não acontece nada de bom nesse país? Será que ninguém faz algo bom, digno de ser noticiado? Será que não há um político, um policial ou um bandido que faça uma boa ação digna de nota, mesmo que seja ajudar uma velhinha a atravessar a rua? Será que não há uma ONG ou uma associação desempenhando uma atividade louvável para a sociedade?
Sem querer enveredar pela denominada literatura de autoajuda – a qual merece todo o nosso respeito -, talvez esteja na hora de a imprensa contribuir para melhorar a autoestima do brasileiro e mostrar-lhe que ainda há muita gente boa e honesta nesse país, cujos feitos merecem ser reconhecidos. Talvez seja a hora de se veicular boas e também más notícias, sem priorizar tanto estas últimas e sem “maquiar” as primeiras.
Decerto, a desgraça – em especial, a alheia – desperta no ser humano um grande interesse, digno de nota e atenção. Basta observar que essa irresistível atração pela tragédia, cujo surgimento remonta a Grécia antiga, não se verifica somente na imprensa, mas também nas novelas, na literatura e em todas as formas de manifestação artística e, o mais interessante, os melhores enredos versam sobre um personagem que passa uma estória inteira sofrendo e quando finalmente alcança a felicidade, a história acaba.
Enfim, não se precisa fazer “acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes”, mas talvez “fazer com que o mais simples seja visto como o mais importante”, citando Legião Urbana.
Será que não interessa a ninguém – em especial ao caro leitor ou ao telespectador – uma história feliz, ou será que só a desgraça dá ibope?
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça e Escritora

DESGRAÇA CONTINUA DANDO IBOPE

DESGRAÇA CONTINUA DANDO IBOPE
Espantada com a importância dada pela mídia a notícias ruins, escrevi um artigo intitulado “desgraça dá ibope”, onde procurei abordar a ênfase conferida aos dramas e às tragédias pelos noticiários televisivos, tendo por consequência uma excelente audiência.
Há bem pouco tempo, os programas policiais eram vistos com certa reticência por parte de um pequeno grupo de pessoas, a considerá-los de má qualidade, sempre a abordar a desgraça alheia com uma simplicidade quase afrontosa. E o pior, esses programas policiais eram exibidos justamente nos horários das refeições, onde a família costuma se reunir e travar um salutar diálogo, onde os pais procuram saber acerca do dia-a-dia do filho, do trabalho, enfim…
O que hoje se constata é que todos os noticiários televisivos, sem exceção, fazem a cobertura de matérias que relatam tragédias pessoais, crimes bárbaros, praticados em situações inusitadas, assassinatos, mortes, chacinas, estelionato, roubos, sequestros, estupros, tráfico de drogas…
E não importa o canal de televisão, o horário, nada, a matéria preferencialmente enfocada tem como foco uma desgraça, seja ela qual for, contanto que seja uma desgraça.
Antes, os pais estimulavam os filhos a assistirem aos telejornais para se manterem atualizados, para saberem o que acontecia no mundo, num mundo onde política, economia, cultura, cotidiano, eram abordados com singularidade, com o objetivo de informar. E os pais acreditavam que, desse modo, os filhos não ficariam alienados.
Hoje, seja qual for o jornal televisivo, a maioria das matérias aborda algum tipo de crime, alguma desgraça, seja ela qual for. Esses telejornais disputam a mesma audiência dos programas policiais, para os quais ganham apenas no quesito produção, maquiagem, qualidades das tomadas externas, etc.
E assim vamos levando a vida, apavorados com as desgraças de que o ser humano é capaz, das infelicidades que pode provocar no seu semelhante, da dor que pode infligir ao próximo. E assim vamos ficando descrentes, embrutecidos, assustados, decepcionados, incapaz de acreditar na bondade, na decência, na solidariedade, no amor… E nossa esperança vai se arrefecendo.
Sei que desgraça dá ibope, mas será que poderíamos começar a pensar numa cultura de paz, onde os meios de comunicação podem dar maior visibilidade ao belo, ao bom, restituindo um pouco de nossa esperança no ser humano e num mundo melhor?
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça e Escritora

Sabedoria Grega

SABEDORIA GREGA
Por volta do ano 405 a.C., foi representada pela primeira vez no teatro grego a peça: “Ifigênia em Áulis”, escrita pelo dramaturgo Eurípides, autor de inúmeras outras peças, dentre dramas satíricos e tragédias.
Na peça “Ifigênia em Áulis”, Eurípides trata sobre o drama do rei Agamenon em ter de sacrificar a própria filha, de modo a obter ventos favoráveis para que a esquadra grega aportada em Áulis pudesse partir em direção à Troia e ali ser vitoriosa.
Agamenon, rei de Micenas, era o Chefe Supremo dos exércitos gregos que combateriam em Troia, tudo em razão do rapto da bela Helena, esposa do rei espartano Menelau – irmão de Agamenon – pelo príncipe troiano Páris. Os exércitos gregos se reuniram no porto de Áulis, donde partiriam para Troia; todavia, os ventos eram completamente desfavoráveis. Assim, o adivinho Calcas informou que os ventos mudariam somente se a filha de Agamenon, Ifigênia, fosse dada em sacrifício à deusa Ártemis.
Agamenon, Menelau, Calcas e Ulisses tiveram então a ideia de enviar uma mensagem falsa à esposa do primeiro, Clitemnestra, para que levasse a filha Ifigênia ao acampamento grego, a pretexto de contrair núpcias com o glorioso Aquiles. Depois, Agamenon se arrepende e manda uma contraordem, correspondência essa interceptada por Menelau, que se revolta com a traição do irmão.
Esse enredo possui uma atualidade impressionante.
É que numa das passagens da peça, Menelau lembra a Agamenon do período em que este, no desejo de comandar o exército grego, era uma pessoa cordata, disposta a apertar as mãos de todos aqueles que encontrasse, sempre disposto a atender a qualquer pessoa, em qualquer dia e horário em seu palácio. No entanto, quando finalmente conseguiu assumir o comando supremo de todos os gregos, houve uma radical mudança em sua atitude. Seus amigos leais sequer conseguiam se aproximar do mesmo, tornando-se uma pessoa inacessível, reclusa em seu próprio palácio, deixou de ser prestativo e cordato, assumindo uma postura arrogante e diversa daquela até então conhecida por todos.
Portanto, há inúmeros séculos atrás, Eurípides já descrevia o perfil de uma pessoa quando finalmente chega ao poder. Qualquer semelhança com quem conheçamos no cenário político, seja em que esfera for, decerto não é mera coincidência.
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça e Escritora