O INIMIGO DO MEU INIMIGO É MEU AMIGO

Para todo o mal, existem um bem.
Para tudo o que há de pior, deve ser extraída uma lição.
O imenso poderio demonstrado pelas facções criminosas que vem aterrorizando o Estado do Ceará, desde o início desse ano de 2019, é inconteste.
As facções, em represália às ações do Estado na tentativa de endurecer as políticas prisionais a si destinadas, de modo a coibir seu fortalecimento, estão implantando um verdadeiro terror não só na Capital, mas também em cidades do interior, por meio de seus “salves”, as ordens de comando para atacar os alvos pretendidos, prédios públicos ou o patrimônio privado.
O objetivo é claro: por meio do medo, querem as facções fazer o Estado recuar e se manter como dantes, fechando os olhos para sua existência e deixando que se digladiem entre si, exercendo o absoluto controle dos presídios, a partir dos quais são emanadas as ordens criminosas mais variadas, para o mundo extramuros, a serem executadas pelos seus “exércitos”.
PCC, CV e GDE são rivais naturais. Vivem se enfrentando pela conquista de territórios envolvendo o tráfico de drogas. Possuem “exércitos” próprios, dentro e fora dos presídios, com poder de vida e de morte sobre seus comandados. Movimentam grande quantia de dinheiro, a qual se destina, também, a pagar as despesas de custeio com os diversos agentes do Estado, os quais fazem parte de suas folhas de pagamento. Porque não se pode pensar em crime organizado sem seus tentáculos no ente estatal.
De vez em quando, em busca de um bem maior, PCC, GDE e CV se unem. Fazem um armistício temporário para fazerem frente ao seu inimigo em comum: o Estado.
Essa união entre as facções, embora provisória, serve para mostrar o grau de inteligência dos criminosos que, visando sua própria sobrevivência e bem-estar, são capazes de se unir ao inimigo, passando por cima de suas rixas, vinganças, disputas de poder, pois o intuito maior é garantir sua sobrevida.
Nesse ínterim, os gestores públicos continuam alimentando suas rusgas inconsequentes, trocando farpas, apontando culpados, teimando em não se unirem.
Muitos dos cidadãos de bem, por sua vez, embarcam na mesma onda dos homens públicos, se rivalizando nas redes sociais, não se cansando de alimentar o caldeirão de intolerância, quando deveriam firmar a paz.
Por isso, os inimigos naturais PCC, GDE e CV, quando preciso, tornam-se amigos, estabelecendo uma trégua temporária.
Porque o inimigo do meu inimigo é meu amigo.

Grecianny Carvalho Cordeiro

Promotora de Justiça

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