PORTA DOS FUNDOS

Porta dos Fundos é bastante conhecido pela produção de vídeos de humor, especialmente no YouTube, onde possui mais de 16 milhões de inscritos, com mais de 5 bilhões e meio de visualizações, conforme consta em seu canal.

Via de regra, seus vídeos são inteligentes e bem humorados, capazes de nos proporcionar grandes risadas.

No final do ano de 2019, o Porta dos Fundos resolveu fazer um “Especial de Natal”, chamado de “A Primeira Tentação de Cristo”, em que retrata Jesus como gay.

Jesus vai à casa de seus pais, José e Maria, onde Deus se encontra, ocasião em que decidem contar que Jesus não é filho de José, é sim de Deus. Triângulo amoroso. Traição. Prostituição. São essas as temáticas abordadas pelo vídeo.

Eis o resumo da ópera.

A confusão se instalou no país.

Católicos e evangélicos, religiosos ou não, se insurgiram contra o vídeo, considerando-o ofensivo e desrespeitoso. Pediram a pronta intervenção da Justiça para proibir sua veiculação.

Houve ataque incendiário à produtora do programa.

A Justiça negou o pedido de proibição de veiculação do vídeo. Em Segunda Instância, a decisão foi cassada e foi determinada a proibição. O STF, por sua vez, cassou a decisão anterior, mantendo o vídeo.

Liberdade de expressão artística. Liberdade de pensamento. Liberdade religiosa. Proibição de censura. O litígio gira em torno desses princípios constitucionais.

Questões jurídicas à parte.

Fico me perguntando o que faz com que um programa com tantos seguidores e tanta audiência, cujos atores e atrizes são conhecidos e famosos, resolva satirizar – de uma forma debochada – com Deus, Jesus, Maria e José, figuras sagradas e tão caras à maioria dos brasileiros, dentre católicos e evangélicos. Mesmo para os muçulmanos, Jesus é um respeitável e iluminado profeta!

Não se trata aqui de liberdade artística, tampouco liberdade de crença. Nada disso. Se trata unicamente de respeito àquele que crê e ao que não crê.

Não se trata aqui de humor, de levar o público a gargalhadas. Nada disso. Se trata de tripudiar e debochar da crença do outro, ridicularizando o que lhe é sagrado.

Vivemos em um país livre, assegurada a plena liberdade em nossa Constituição, mas não podemos esquecer que nosso pleno direito e liberdade se esbarram no direito e na liberdade do outro.

Tudo na vida tem limites. No amor. Na paixão. Na deslealdade. Na desonra. Na tristeza. Na indecência. No humor também.

Que tal tentar fazer um humor sem ofender, sem tripudiar, sem escrachar com a fé do outro? A fé – no que for ou em quem for – é sagrada.

A fé desafia a ciência, não pode ser medida, vista ou comprada. A fé é simplesmente sentida.

Então, vamos respeitar.

Grecianny Carvalho Cordeiro

Promotora de Justiça

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