ROSABELA E CARIMBAMBA

É mês de São João, de bolo de milho, pé de moleque e de forró. Mês de festejos que são expressão maior da cultura nordestina. Por isso, vou recontar aqui uma versão da lenda da Lagoa do Opaia, situada em Fortaleza, que serviu de inspiração para a música de Luiz Gonzaga: “Amanhã eu vou”, publicada no meu recente livro “Contos Escolhidos”, em parceria com a amiga Angélica Sampaio:

Todas as noites, o uivante vento que soprava da lagoa trazia o lamurioso canto da Carimbamba, a ave que parecia uma coruja, cujo codinome era Bacurau: 

– “Amanhã eu vou, amanhã eu vou…”

Rosabela era uma linda e resplandecente jovem, e por ser extremamente romântica, se sentia encantada com o canto triste daquele belo pássaro que, desde então, a embalava para dormir, fazendo com que sonhasse lindos e ternos sonhos.

Quando acordava, Rosabela amanhecia disposta e feliz. Com certeza, eram os efeitos daquele canto que soava insistente em sua cabeça: “Amanhã eu vou, amanhã eu vou….” 

E não eram raros os momentos em que, no decorrer do dia, Rosabela se surpreendia ao se ouvir cantarolando: “Amanhã eu vou, amanhã eu vou….” 

– Minha filha, estou achando você muito dispersa. Está acontecendo alguma coisa? – indagou sua mãe.

O rosto de Rosabela corou. Ela não sabia o que dizer à mãe. Como poderia explicar que estava encantada por um triste canto de um pássaro?

– Estou bem, mãe. 

– Está apaixonada? – palpitou a mãe, desconfiada.

– Claro que não, mamãe. De onde tirou essa ideia?

E assim Rosabela desconversou. 

O tempo foi passando e não havia uma noite sequer em que Rosabela aguardasse ansiosamente o canto da Carimbamba: “Amanhã eu vou, amanhã eu vou….”

“Para onde vou, não sei. Mas sei que vou”. Disse para si mesma, em resposta ao canto, acreditando que seria ouvida pela ave.

Certa feita, sem mais poder conter a paixão que invadia seu coração e fazia arder seu peito, Rosabela esperou que todos em casa se deitassem. Então, tomada de entorpecimento, como se estivesse sob o impacto de algum feitiço, saiu de casa sorrateira e foi de encontro ao canto da Carimbamba.

A noite estava fria e soprava um forte vento. Ao chegar da lagoa do Opaia, sob a luminosidade de uma majestosa Lua cheia, Rosabela simplesmente entrou na água e se rendeu por completo ao triste canto da Carimbamba, a ele se entregando, de corpo e alma. 

– “Amanhã eu vou, amanhã eu vou….”

O canto triste da Carimbamba ficaria perdido no tempo e, assim, no mais puro esquecimento Rosabela ficou.

Grecianny Carvalho Cordeiro

Promotora de Justiça

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