TUDO SOB CONTROLE

Ano novo. Vida nova.
Para alguns.
Ataques a ônibus, delegacias de polícia, viadutos, agências bancárias, fotossensores, postos de gasolina. Pessoas feridas. Medo. Torpor.
Assim tem sido o Estado do Ceará sob o jugo de facções criminosas, cuja existência é negada pelas autoridades.
Se compreendemos que algo não existe, não há porque combater. Se entendemos que um problema não existe, não há porque adotar qualquer medida no sentido de resolvê-lo.
Pelo jeito, a despeito da ocorrência de idêntica situação em ocasiões anteriores, o Estado do Ceará continua negando a existência de facções criminosas. Imaginemos então se essas facções realmente existissem. O estrago seria bem maior.
Entra ano e sai ano, a ladainha é sempre a mesma: não existem facções criminosas no Ceará; serão instaladores bloqueadores de celulares dos presídios; os líderes das facções (que não existem) serão transferidos de presídios; os estabelecimentos penitenciários não serão divididos por facções (que não existem)…
“(…) reforcei minha determinação de continuar agindo com todo o rigor e dentro da lei para coibir as ações criminosas e estabelecer o total controle das unidades prisionais, conforme todo o planejamento que já vem sendo feito no Ceará (…)” declarou o Governador em suas redes sociais.
E em uma entrevista, o Governador asseverou que: o Ceará tem todas as informações dos homicídios, se não tivesse o controle da situação, nem você (o repórter) estaria nem andando pelas ruas; o Ceará tem o total o controle das informações sobre os homicídios que ocorrem, por área, por hora, por região, por bairro…
Conforme se infere das declarações acima referidas, ao mesmo tempo em que há o total controle dos presídios pelo Estado, há o controle total da situação.
Criada a Secretaria de Administração Penitenciária no Ceará, o titular da pasta determinou fosse feita uma varredura em busca de celulares nas celas dos presídios, bem como pretende isolar as lideranças das facções (que não existem).
Novamente é feita a solicitação de reforço por parte de agentes da Força de Segurança Nacional e Força-Tarefa de Intervenção Penitenciária.
Talvez nunca seja demais lembrar que crime organizado se combate com inteligência; com informação e contrainformação; com silêncio nas ações, sob pena de dar farta “munição” aos criminosos.
Talvez seja chegada a hora de se falar menos e agir mais.
Mesmo que tudo esteja sob total controle.

Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça

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