UM MINISTRO, UM BARCO
O Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte de justiça do Brasil, é composto por onze Ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de 35 anos e menos de 65 anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.
Os Ministros do STF serão nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal.
Assim diz o artigo 101 da Constituição Federal.
O Ministro da Justiça Alexandre Moraes, em face do falecimento do Ministro Teori Zavascki, foi indicado pelo Presidente da República para ocupar tal vaga, pelo que deverá ser sabatinado pelo Senado Federal, cuja maioria absoluta deverá aprovar sua indicação.
Até aqui, as coisas estão nos conformes da lei.
Mas eis que aparece um barco na história.
Num momento em que o Brasil procura passar a limpo sua história, investigando, processando e punindo diversos políticos, agentes públicos, empreiteiros e outros por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, etc, alguns ilustres Senadores, formados pelos partidos PR, PTB, PRB, PSC e PTC, resolvem fazer uma “sabatina informal” com o indicado a Ministro do STF, Alexandre Moraes, em um barco atracado na residência do Senador Wilder Morais, em Brasília.
A conversa “foi séria e respeitosa”, declarou Alexandre Moraes.
Conversa séria sobre trabalho é tida em ambientes formais, justo para mostrar o respeito entre os interlocutores, cada qual no papel que lhe é destinado.
Conversa séria entre homens sérios é mantida à luz dos holofotes, à vista de quem quiser ver, até porque, não há nada para se esconder.
No país da Lava Jato, em que boa parte dos parlamentares estão envolvidos em esquemas de corrupção, com nomes citados, divulgados ou não, nunca uma conversa séria poderia ser tida num jantar em um barco de um Senador, na companhia de políticos cujos partidos estão seriamente envolvidos na Lava Jato, longe da imprensa, às escondidas.
No país da Lava Jato, o povo não aguenta mais tanta desfaçatez e manobras escusas dos políticos com o nítido objetivo de barrar uma investigação que deve ser levada ao conhecimento da sociedade e seguir até o fim, doa a quem doer.
No país da Lava Jato, não se pode admitir que um futuro – porque será – Ministro do STF, a julgar casos de extrema importância, se reúna em barcos com políticos que o sabatinarão em breve, precisando saber de sua opinião sobre aquele que provavelmente irá julgá-los.
No país da Lava Jato, a verdade precisa ser exposta a todos os brasileiros, e os responsáveis devem ser punidos, como toda e qualquer pessoa que comete um crime.
A conversa entre os senadores e o futuro Ministro do STF com certeza foi respeitosa. Mas séria? Por favor, não subestimem nossa inteligência.
Os nobres políticos continuarão usando os artifícios possíveis e impossíveis para impedir que sejam investigados, expostos, punidos por seus atos criminosos. Compreensível, porque dignidade, ética, decência, honestidade, seriedade, são palavras inexistentes em dicionários de muitos.
Mas um candidato ao cargo de Ministro do STF se sujeitar a reuniões em barcos, em “sabatinas informais”, afronta o mínimo de ética que se exige a qualquer ser humano, ainda mais a um pretenso magistrado da corte de justiça mais importante do país.
O recado ficou claro: o barco da Lava Jato precisa ser afundado.
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça
UM BARCO, UM MINISTRO

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