A DUPLA MORTE

Na mitologia grega, o reino dos mortos ou o Submundo, onde a luz não penetrava, era governado por Hades e por sua esposa Perséfone. 

E quando alguém morria, para que sua alma pudesse ser recebida no reino de Hades, era necessário que fosse realizado o sepultamento com os rituais funéreos, dentre os quais, a libação aos deuses, os lamentos fúnebres, até que a pira fosse acesa e o corpo queimado, sendo as cinzas depositadas em uma urna, a serem colocadas no túmulo a ser erigido em honra ao morto. Ressalte-se, ainda, que um óbolo deveria ser colocado na boca do morto para fins de pagamento ao barqueiro Caronte, encarregado de fazer a travessia pelo rio Aqueronte.
Para aqueles que ficassem insepultos, suas almas ficariam vagando por cem anos. Tal destino era motivo de grande temor para quem quer que fosse.
Foi por isso que Príamo se humilhou diante de Aquiles, pagando a peso de ouro para resgatar o corpo de Heitor, de modo a que seu filho pudesse receber as honras fúnebres.
Foi por isso que Hércules cuidou em construir sua própria pira, pedindo ao amigo Filoctetes que a acendesse, para que queimasse seu corpo.
Foi por isso que Antígona, filha de Édipo, desobedeceu às ordens do rei Creonte, e fez com que seu irmão Polinices fosse sepultado e recebesse as devidas honras; porque essa era a lei dos deuses, a qual não poderia ser contrariada em face de um édito tirano.
Portanto, desde tempos imemoriais, o ser humano tem a necessidade de seguir algum ritual para velar e enterrar seus mortos, como forma de despedida ou de homenagem, a variar conforme o país, a cultura, a religião.
Em época de pandemia, como essa imposta pelo Covid 19, as famílias têm sido impedidas de se despedir de seus mortos, de dar um último adeus, e essa necessária proibição – em face do momento – tem provocado o que se chama de “dupla morte”.
O luto não vivenciado, a lágrima contida, as palavras silenciadas, as homenagens não feitas, o último olhar não permitido, o abraço solidário não recebido… tudo isso reforça a sensação de dupla perda para os que ficam, impedidos de sepultar seus entes queridos, naquilo que constitui um ato revestido de um valor simbólico trazido por todas as civilizações, ao longo de toda a História da humanidade.
É terrível constatar como um elemento invisível, além de tirar a vida de muitos, priva os que ficam do direito sagrado de despedida, impondo-lhes uma dupla morte.

Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça

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