A OUSADIA DO HOMEM

Quem aprecia a leitura pode dela extrair inúmeros ensinamentos e, também, fazer diversas reflexões.

Para aqueles que apreciam um bom romance, notadamente de rico conteúdo histórico, Ken Follet é um escritor de referência. Livros densos, longos, porém, extremamente envolventes.

No livro “Coluna de Fogo”, o autor desenvolve a trama a partir do ano de 1558, na época em que a Espanha católica do rei Filipe era o país mais rico do mundo. A Inglaterra, ainda pobre, após a morte de Maria Tudor, inicia uma nova fase com a ascensão da rainha Elizabeth ao trono, esta, protestante, determinada a enfrentar o poderio e a resistência da Igreja católica ao seu reinado, em que assegurava a liberdade religiosa. Nesse entremeio, Maria, rainha da Escócia, se esforça para reinar em seu país, apesar de ter vivido desde criança na corte francesa, vindo a se casar com Francisco, o “Delfim” e se tornar rainha da França.

É nesse contexto histórico que Ken Follet, com maestria, mostra com riqueza de detalhes as conspirações palacianas, a religião intrinsecamente ligada aos assuntos de Estado, a luta dos protestantes pela liberdade de culto, inspirados por Calvino e Martin Lutero, a intolerância dos católicos frente aos protestantes… E como não poderia deixar de ser, pitadas de romance e espionagem em personagens marcantes.

Mas foi pensando em uma frase do livro que resolvi escrever esse artigo: “quando um homem tem certeza de saber qual é a vontade de Deus e está decidido a cumpri-la custe o que custar, ele é a pessoa mais perigosa do mundo” (p. 186).

Ah, o homem! Esse ser que, desde tempos imemoriais, tenta interpretar, entender e questionar a vontade dos deuses – no mundo antigo – e de Deus, ou melhor dizendo, das forças superiores em que acreditam, quer denominem Buda, Jesus Cristo e seus discípulos, Alá e seus profetas…

Ah, o homem! Esse ser que, quando acredita ter descoberto a verdadeira vontade de Deus, se dispõe a cumpri-la, de acordo com suas crenças, da maneira que entende ser a adequada, independentemente do que o outro venha a desejar, pensar ou acreditar.

Aqui não se busca tratar ou questionar sobre religiões ou fé. Isso é assunto sagrado e compete a cada um de nós ter ou não uma religião, ter ou não fé. Bastava essa simplória convicção e, com certeza, o mundo seria um pouquinho melhor.

O problema se torna ainda maior quando o homem resolve levar essa mesma certeza para o campo da política, da democracia, das artes, da cultura, da educação…

Ah, o homem e sua eterna ousadia!

Grecianny Carvalho Cordeiro

Promotora de Justiça

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